Cerca de um quilómetro antes do Santuário da Abadia, podem ver-se as capelas correspondentes aos caminhos da “Paixão de Cristo” e da “Vida de Maria”, popularmente conhecidos como “Calvários da Senhora da Abadia” ou “Caminhos de Belém”. O passeio pelas 15 capelas: sete rectangulares e oito hexagonais com fachadas tardo-barrocas, construídas sobretudo do lado esquerdo do caminho, é obrigatório, seja em peregrinação ou apenas para apreciar a natureza. As capelas rectangulares correspondem aos passos principais da Paixão de Cristo, enquanto as hexagonais representam a vida da Virgem Maria.
Presume-se que as capelas tenham sido construídas no século XVIII, após a visita do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles. Rodrigo de Moura Teles, responsável pela construção da escadaria do Bom Jesus do Monte, em Braga.
O percurso é altamente recomendável para quem quer mergulhar no silêncio da montanha, embalado pelo canto dos pássaros e pelo bater das águas, que são uma marca ininterrupta em toda a Abadia.
Quando se começa a caminhar, no cruzamento da Calçada do Rebentaço com a rua principal, poucos metros à frente encontra-se a primeira capela: a do Nascimento de Nossa Senhora. A cena é composta por dois grandes anjos a venerar o recém-nascido. No centro, Santa Ana descansa com ar feliz. Ao lado do leito, as criadas que ajudaram no parto e, à esquerda, o pai de Maria: São Joaquim, também feliz, olhando para a sua filha.
Segue-se a Apresentação de Nossa Senhora no Templo. Aos três anos de idade, Nossa Senhora foi levada por seus pais, São Joaquim e Santa Ana, ao Templo de Jerusalém, onde foi cuidadosamente instruída na fé e nos seus deveres para com Deus. Ao entrar no Templo, Maria foi recebida de braços abertos pelo sacerdote, numa sessão solene em que foi oferecido um cordeiro sacrificado, levado ao colo por um servo.
A capela do noivado de Nossa Senhora a S. José é a terceira da vida de Maria e representa o casamento de José com a Virgem Maria. Uma cerimónia testemunhada por algumas figuras que seguram flores e tochas. No centro, uma pomba, símbolo do Espírito Santo, irradia luz em várias direções.
A Anunciação do Anjo Gabriel a Nossa Senhora está representada na quarta capela. Representa o episódio em que o Anjo Gabriel, na pequena aldeia de Nazaré, anuncia a Maria a sua maternidade. O anjo aparece sobre uma nuvem, segurando um ramo na mão esquerda e levantando a direita num gesto de saudação a Maria, que se ajoelha submissa.
Depois da Anunciação, Maria vai visitar a sua prima Isabel. Na quinta capela, as duas mulheres partilham num abraço a alegria do estado em que se encontram, sob o olhar dos seus maridos: São José e São Zacarias.
Continuando a subir, chegamos à sexta capela hexagonal, que representa o nascimento do Menino Jesus em Belém. Maria e José contemplam o recém-nascido de joelhos, rodeados por três pastores de cada lado. No cimo da cabana, um anjo segura uma fita com as palavras “Gloria in excelsis Deo”.
A sétima capela da Vida de Maria mostra a Adoração dos três Reis Magos ao Menino Jesus, que está nos braços de sua mãe, amparado por São José. No cimo, a estrela que conduziu os Reis Magos. A capela foi construída entre 1765 e 1766.
A última capela da vida de Maria representa a chegada do Menino Jesus ao Egito e está construída antes da entrada do Santuário de Nossa Senhora da Abadia. Maria chega montada num burro, com o Menino nos braços, seguida por São José com as suas ferramentas às costas. Um anjo negro aponta para a Sagrada Família à entrada da cidade, com um ambiente tipicamente oriental. Segundo a lenda popular, quando o anjo negro suspenso no centro da capela cair, o mundo acabará!
As capelas da Paixão de Cristo, para além de serem mais pequenas do que as da Vida de Maria, são na sua maioria compostas por uma única escultura. A primeira capela representa a Agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. A imagem que se vê é a de Jesus prostrado de joelhos diante do Divino Salvador, que aparece numa nuvem cravada na parede e com um anjo O CALVÁRIO DA SENHORA DE ABADIA e uma cruz na mão esquerda e o cálice da amargura na mão direita.
Continuando a subir, e mesmo no meio da estrada, aparece a segunda capela da Via Sacra, que mostra a Flagelação de Jesus, amarrado a uma coluna, com os pés e as mãos atados e sangue a jorrar das feridas do seu corpo.
Continuando o percurso, chegamos à capela da Coroação, com Jesus a ser coroado de espinhos por dois soldados hebreus. Nesta capela, vemos Jesus sentado, coberto com um manto de púrpura, com as mãos atadas e uma coroa de espinhos na cabeça. Continuando o nosso caminho para o Santuário, os sons que enchem os nossos pensamentos são calmos, assim como a paisagem natural que nos rodeia e acompanha.
Algumas centenas de metros à esquerda do santuário, perto da gruta das aparições, encontra-se a capela do Ecce-Homo, que mostra Pilatos a mostrar Jesus ao povo.
Subindo a estrada, eis outra capela: a quinta da Via Sacra. Esta é a Capela das Quedas. Aqui, Jesus tem o joelho direito no chão e uma cruz na mão esquerda, representando as três vezes em que caiu a caminho do Calvário por não conseguir suportar o peso da cruz.
Mais acima, a sexta capela da Via Sacra representa a retirada das vestes de Jesus que, encostado à cruz, não reage e consente com as maiores humilhações dos soldados.
Virando à esquerda e chegando a uma escadaria, chegamos à última capela da Paixão de Jesus: a do Calvário. Revestida de azulejos do século XVII, a maior de todas as capelas representa a morte de Jesus crucificado ao centro, ladeado pela sua mãe, o discípulo João e com Maria Madalena abraçada à cruz. Estamos no cimo do monte e a paisagem que se avista deslumbra qualquer olhar, seja pela rara beleza da paisagem, pela tranquilidade que dali emana ou pelo silêncio, apenas interrompido pelo bater da água nas rochas.